A Europa ardia mergulhada
na 1ª Guerra Mundial. Nas trincheiras enlameadas, os soldados franceses e
ingleses tentavam celebrar o nascimento de um Deus que parecia ausente
no meio de toda aquela violência. As constantes explosões das bombas
tinham cessado, pois ninguém estava com vontade de matar naquele dia tão
especial. Contudo, a fome e o frio agonizante não deixavam nenhum
soldado em paz, e sem luzes nem música nem parecia Natal.
A
tiritar de frio, um cabo francês espreitou para a trincheira inimiga,
daqueles tão odiados alemães, procurando qualquer movimento suspeito do
inimigo. Com grande espanto, viu luzes a brilhar no horizonte negro,
como estrelas no céu. Levantou-se um pouco mais e reparou que as luzes
se distribuíam por toda a linha inimiga. Pegou nos binóculos e percebeu o
que eram: árvores de Natal. Dezenas, talvez centenas de árvores de
Natal!
Chamou o seu oficial superior, que também olhou com
admiração para os belos enfeites alemães, lá longe, como se a alegria
fosse exclusiva para o inimigo. Sabiam que a trincheira alemã tinha
melhores condições, comida e calor suficientes para passar aquele duro
Inverno sem privações. O oficial olhou para trás, para os seus homens
amontoados entre si, com olhares tristes e aspecto miserável. Nesse
momento, os seus ouvidos captaram uma melodia conhecida, que também
vinha do lado alemão. Eram cânticos de Natal...
Os alemães
celebravam alegres o nascimento do Salvador. O oficial reflectia se não
teriam os alemães comida suficiente para os franceses e ingleses não
terem de passar fome naquele dia tão especial, mas depressa concluiu que
nunca iriam os da outra trincheira ceder-lhes sequer uma côdea de pão.
De repente, ouviu um dos seus soldados a cantar na sua língua em
conjunto com a música alemã, e o que começou como um tímido cantarolar
propagou-se por toda a trincheira. Em pouco tempo, todos cantavam com os
alemães.

Da trincheira alemã um grito suou: Fröhlich
weihnachten! Um dos soldados franceses reconheceu aquelas palavras:
Feliz Natal! Entusiasmados, alguns soldados repetiram a saudação, uns em
alemão, outros na sua língua materna. Logo em seguida, outras palavras
alemãs chegaram, que traduzidas revelavam uma oferta dos inimigos:
juntarem-se na Terra de Ninguém e celebrarem juntos o dia de Cristo.
Alguns soldados ficaram entusiasmados, outros receosos, mas nenhum
conseguiu ficar indiferente à proposta.
Após alguma
discussão, o oficial deu ordem para se mandar um batedor, que lá subiu o
fosso até à esburacada (por causa das bombas) Terra de Ninguém. Um
grupo de alemães já o esperava, no meio daquele temível pedaço de terra,
onde os corpos de centenas de homens dos dois lados do conflito jaziam
mortos, alguns de há poucos dias, outros já ali estariam há meses. O
francês aproximou-se e recebeu as prendas dos alemães com alegria,
percebendo a importância daquele gesto. Chamou os colegas, que saíram
aliviados e alegres do buraco onde se outrora se protegeram. Os alemães
também chamaram o resto da trincheira, que veio ao encontro daqueles que
há poucas horas tentavam aniquilar.

Franceses e ingleses
pouco tinham a oferecer, além de fome, frio e paz. Os alemães
partilharam o que tinham para partilhar, e juntos com os seus inimigos
viveram uma verdadeira ceia de Natal. Não só soldados, mas até oficiais
abraçavam aqueles a quem outrora apontavam as armas. Um dos ingleses
trouxe uma bola e uma ideia: levar o festejo ainda mais longe e jogar
uma partida de futebol. O campo foi alisado, e balizas montadas com
espingardas e canos de artilharia. O jogo ficou 3-2, com a vitória dos
germânicos.
Afinal, Deus não abandonara a Europa. Ele
esperou até chegar o aniversário do Seu filho para revelar aos homens a
verdade: as pessoas da Europa não queriam aquela guerra, apenas os
líderes se queriam matar uns aos outros. Feliz, o oficial francês
percebeu o quão próximo estava o fim da violência. Porque no meio dos
corpos dos seus colegas tombados, os soldados conseguiram cumprimentar
quem os matou. Porque no meio de tanta desumanidade, eles conseguiram
produzir o maior gesto de humanidade possível. Porque naquele dia de 25
de Dezembro de 1914, no meio da maior guerra de sempre, franceses,
ingleses e alemães encontraram-se, não como vizinhos hostis, mas como
irmãos.
A Gotinha João Sequeira