sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Um pedido da Gotinha

São João da Cruz: no mundo dos homens em que vivemos, poucos são os que estão dispostos a aceitar a mensagem de Cristo e do seu Evangelho.
São poucos os que se lembram de que a verdadeira felicidade está ali, como Tu ensinaste, no cimo do Monte, o Monte de Deus, aonde só se chega por caminhos divinos, sendo o mais rápido e o mais seguro aquele que Tu indicaste: a senda recta e perfeita do amor de Deus.
Bem sabes, Frei João, que a todos nos custa subir, que muitas coisas nos impedem de avançar e nos puxam para baixo.
Mas tu indicas-nos um arrimo, o báculo insubstituível, a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Por isso, ao contemplar-te desde este nosso mundo, como o primeiro entre todos os filhos do Carmo, o irmão mais velho, constituído pai e mestre, o primeiro a pisar o cimo da Montanha Sagrada, a contemplar as belezas de Deus, a saborear as delícias da contemplação e do amor, a tua figura aparece-nos como a de uma águia real que com o seu rápido voo alcança as alturas mais puras.
Mas não esquecemos que foste um alpinista que lentamente, com esforço e trabalho, cantando e rezando, em silêncio e solidão, sem nunca deixar os irmãos, subiste passo a passo a Montanha que conduz ao Infinito.
Foste um homem como nós que ansiou pelo Infinito e atingiu a plenitude. Como nós sofreste o rigor das tempestades, foste vítima dos olhares rancorosos, sentiste as incompreensões, o peso da matéria, a tentação do desânimo...
Porém... No teu coração de carne, encerrado em teu peito amoroso, brilhava uma luz inacessível, um poema maravilhoso, uma Fonte inesgotável de pureza e ternura, um Cântico de inexplicável doçura, uma Chama ardente que iluminava as noites escuras da tua vida tornando-as mais claras que o meio dia.
Mantiveste a serenidade, superaste como bom atleta os obstáculos do caminho, orientaste com segurança o coração, purificaste o amor, e deixaste cativar-te por aquelas palavras do Senhor: «uma só coisa é necessária». E no cimo do Monte encontraste a Deus. Encontraste a paz e a felicidade.
Os que ainda vivemos nesta terra lutando pela vida, dirigimos-te hoje a nossa oração, pedindo que não deixes que os obstáculos e dificuldades nos vençam, que não nos falte a vontade de subir às alturas.
Assim, chegaremos à plenitude, viveremos a vida que não acaba, saborearemos a felicidade que vale a pena, descansaremos no Monte onde só mora a honra e a glória de Deus.
Santo Padre João da Cruz, semeia no nosso caminho os teus poemas de amor, faz florir na nossa vida as açucenas da tua paz, faz vibrar no nosso coração a doçura do mel das tuas palavras e ajuda-nos a sentir o que tu experimentaste: que o sorriso da Senhora da capa branca nos proteja e conduza.

Assim seja para nosso bem e glória da Santíssima Trindade.

in Música Calada em Oração, Edições Carmelo

Solenidade de Nosso Pai S. João da Cruz



Oração da alma enamorada
 
Senhor Deus, Amado da minha alma!
Se ainda Vos recordais dos meus pecados para não me fazeres o
que Vos tenho andado a pedir, fazei neles, meu Deus, a Vossa vontade,
pois é o que eu mais quero; fazei sentir a Vossa bondade e
misericórdia e neles sereis conhecido.
E se estais à espera das minhas obras para atenderdes o meu pedido,
dai-mas Vós e realizai-as por mim, bem como as penas que quiserdes
aceitar, e faça-se.
Mas se pelas minhas obras não esperais, então porque esperais,
meu clementíssimo Senhor? Porque tardais?
E já que, enfim, há-de ser graça e misericórdia o que em vosso
Filho Vos peço, recebei o meu nada, já que o quereis, e concedei-me
este bem, que também é o que quereis.

Quem se poderá livrar destes modos e baixos termos se não sois
Vós, meu Deus, a erguê-lo para Vós em pureza de amor? Como se
elevará até Vós o homem gerado e criado em baixezas, se não sois
Vós, Senhor, a deitar-lhe a mão com que o fizestes?

Meu Deus, não me ireis roubar o que me destes um dia no vosso
único Filho, Jesus Cristo, no qual me destes tudo quanto quero;
por isso, espero e confio em que não tardarás.

E porquê tanta demora, se já podes amar a Deus no teu coração?
Os céus são meus e a terra é minha. Os povos são meus; meus são
os justos e os pecadores. Os anjos são meus, a Mãe de Deus é
minha, e minhas são todas as coisas. O próprio Deus é meu e para
mim, porque Cristo é meu e todo para mim. Então, que pedes e
procuras alma minha? Tudo isto é teu e para ti. Não te rebaixes
nem olhes às migalhas que caem da mesa do teu Pai.

Sai para fora e gloria-te na tua glória; esconde-te nela e goza, pois
alcançarás o que o teu coração deseja.»

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Chama Viva de Amor

“Oh! Chama de amor viva
que ternamente feres
De minha alma no mais profundo centro!
Pois não és mais esquiva,
Acaba já, se queres,
Ah! Rompe a tela deste doce encontro.

Oh! Cautério suave!
Oh! Regalada chaga!
Oh! Branda mão! Oh! Toque delicado
Que a vida eterna sabe,
E paga toda dívida!
Matando, a morte em vida me hás trocado.

Oh! Lâmpadas de fogo
Em cujos resplendores
As profundas cavernas do sentido,
- que estava escuro e cego, -
Com estranhos primores
Calor e luz dão junto a seu Querido!

Oh! Quão manso e amoroso
Despertas em meu seio
Onde tu só secretamente moras:
Nesse aspirar gostoso,
De bens e glória cheio,
Quão delicadamente me enamoras!”

Lembra-te!



"Quando tiveres algum aborrecimento e desgosto, lembra-te de Cristo crucificado e cala."

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Não esquecer!




"Onde não há amor, põe amor e colherás amor."

Noite Escura

1. Em uma noite escura,
De amor em vivas ânsias inflamadas,
Oh! ditosa ventura!
Saí sem ser notada,
Já minha casa estando sossegada.

2. Na escuridão, segura,
Pela secreta escada, disfarçada,
Oh! ditosa ventura!
Na escuridão, velada,
Já minha casa estando sossegada.

3. Em noite tão ditosa,
E num segredo em que ninguém me via,
Nem eu olhava coisa,
Sem outra luz nem guia
Além da que no coração me ardia.

4. Essa luz me guiava,
Com mais clareza que a do meio-dia
Aonde me esperava
Quem eu bem conhecia,
Em sítio onde ninguém aparecia.

5. Oh! noite que me guiaste,
Oh! noite mais amável que a alvorada!
Oh! noite que juntaste
Amado com amada,
Amada já no Amado transformada!

6. Em meu peito florido
Que, inteiro, para ele só guardava,
Quedou-se adormecido,
E eu, terna, o regalava,
E dos cedros o leque o refrescava.

7. Da ameia a brisa amena,
Quando eu os seus cabelos afagava,
Com sua mão serena
Em meu colo soprava,
E meus sentidos todos transportava,

8. Esquecida, quedei-me,
O rosto reclinado sobre o Amado;
Tudo cessou. Deixei-me,
Largando meu cuidado
Por entre as açucenas olvidado.